Uma das particularidades que mais fascina no trabalho de Mario Bellatin é a maneira corajosa e até arrojada, como os seus livros misturam géneros, desobedecendo a formatações e transgredindo toda e qualquer regra de prateleira, classificação de livros e literatura. São livros que se desviam. Sendo que a procura de outros caminhos, passa muitas vezes por explorar os limites da própria literatura. Isto dá trabalho, claro. Tinha a vida facilitada se, ao invés, se sentasse em frente ao portátil a escrever um romance. Mas já há tantos romances...
Numa altura em que o romance, enquanto género, canibaliza descaradamente outros géneros literários, fazem falta mais Bellatins. Muitos mais.
Desconfio que, mais do que um sinal de vida, ver as livrarias inundadas de gordos romances é um sintoma inequívoco de um modelo em 'gloriosa' decadência.
Não é exagero dizer que este é o género que mais tem feito pela leitura -- pela massificação dos livros, da literatura, da leitura em geral -- . O romance expandiu a 'leitura' e esta tem alimentado a voracidade do romance. Mas isto acabou por desvirtuar o seu modelo clássico e original.
Não deixa de ser irónico que aquele seu papel, tão relevante, tenha acabado por se transformar no seu maior carrasco: o romance engordou demasiado à custa da exigência da 'leitura', perdeu frescura e agilidade. A sua postura alarve e 'imperial' tem provocado o esvaziamento de outros géneros e isso martiriza o seu modelo, ainda mais. A expressão (que tão levianamente usamos) " lê-se como um romance" resume bem o caminho de facilidade e facilitismo que glorificou e acabou por desgastar o romance.
Tenho ouvido alguns escritores dizerem que a revolução dos livros está para breve. (E eu já estou impaciente). Bellatin acrescenta que essa revolução está a ser encorajada e inflamada por via dos formatos digitais e do consequente fim do poderio do 'papel'. Como se, com o desaparecimento do objecto-livro fossem também as regras, os limites, as classificações do seu universo.
Já não era sem tempo!
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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Sem prazer, esqueçam!
Eu e a Brígida assistimos a uma espécie de palestra sobre literatura e novos media. Corria tudo lindamente, até um dos presentes monopolizar as atenções com uma conversa gasta e entediante, do género: "o livro impresso vai deixar de existir? Estará para breve? O que acontecerá ao livro? Ohh, os tablets não têm cheiro. Ohh! vou sentir falta do papel a deslizar nos dedos. E os separadores? ou marcadores? qual será o seu destino? um museu? ... tarari, tarará, tarari, tarará...
- A ideia que temos de um livro é muito marcada pela sua forma. Isso torna-se muito claro quando o livro passa para o formato digital (e tem graça). Já pensaste nisso, Brígida? Não vejo problema algum em ler-se um ‘livro’ (será um livro?) num ecrã. De todo, não fosse dar-se o caso de os tablets ainda se encontrarem na idade da pedra quanto ao conforto e prazer da leitura. Não sabem nada sobre isso. Zero! E sem prazer, esqueçam. É o que te digo, Bri.
Neste ponto, a Brígida fez um estrondo enorme com o livro que tinha nas mãos. Disse-me:
-Acabei de esmagar um mosquito aqui com a contracapa do 'Half a Life', do Naipaul. Achas que o conseguiria fazer com um Kindle? um iPad? ou qualquer outro?
Com o meu portátil não resulta, já tentei!
Ah e digo-te mais: este mesmo 'Half a Life' (incansável) livrou-me ontem de torrar o crânio no inclemente sol da praia do Guincho. Fez as vezes do chapéu que me esqueci em casa.
A minha questão é esta e sempre a mesma: um tablet faria o mesmo?
Quando o fizer eu também vou para a fila comprar um.
Nota: (vale a pena conhecer os recentes estudos de Jakob Nielsen sobre as prestações do Kindle e do iPad)
- A ideia que temos de um livro é muito marcada pela sua forma. Isso torna-se muito claro quando o livro passa para o formato digital (e tem graça). Já pensaste nisso, Brígida? Não vejo problema algum em ler-se um ‘livro’ (será um livro?) num ecrã. De todo, não fosse dar-se o caso de os tablets ainda se encontrarem na idade da pedra quanto ao conforto e prazer da leitura. Não sabem nada sobre isso. Zero! E sem prazer, esqueçam. É o que te digo, Bri.
Neste ponto, a Brígida fez um estrondo enorme com o livro que tinha nas mãos. Disse-me:
-Acabei de esmagar um mosquito aqui com a contracapa do 'Half a Life', do Naipaul. Achas que o conseguiria fazer com um Kindle? um iPad? ou qualquer outro?
Com o meu portátil não resulta, já tentei!
Ah e digo-te mais: este mesmo 'Half a Life' (incansável) livrou-me ontem de torrar o crânio no inclemente sol da praia do Guincho. Fez as vezes do chapéu que me esqueci em casa.
A minha questão é esta e sempre a mesma: um tablet faria o mesmo?
Quando o fizer eu também vou para a fila comprar um.
Nota: (vale a pena conhecer os recentes estudos de Jakob Nielsen sobre as prestações do Kindle e do iPad)
domingo, 27 de dezembro de 2009
Eu, a Vi e os Intelectuais
Eu e a Vi falamos muito sobre temas do dia a dia. Apreciamos, sobretudo, os mais corriqueiros, banais, (aparentemente) desinteressantes, até. Fartas de dar uma de cultas andamos nós, grande parte do tempo (e depois a engolir analgésicos para as dores de cabeça que isso provoca). O mais básico possível é que está bem e quando a conversa começa a subir muito de nível, arrepiamos caminho e regressamos, consentidamente, ao caixote do lixo. Nisso, estamos sempre de acordo!
Há dias, andávamos a tentar chegar a uma conclusão sobre quem tinha tido o namorado mais feio e desengraçado, de sempre. Depois de muita roupa suja esfregada, a Vi lá concluiu: foste tu, miúda, ou já te esqueces-te daquele intelectual sempre de preto, que parecia um filósofo, falava de política e punha o pessoal da turma a olhar para ele, como boi para um palácio?
Um tipo enfiado, de aspecto pavoroso, enfim, também andaste com cada um...
Nem respondi. Estava entretida a sugar a polpa viscosa do diospiro enquanto, ao som da palavra 'intelectual', a figura do P. se ia compondo na minha memória. Era o P., claro. Era ele!
Pois fica sabendo, Vi, que o P. era um feio-bonito. Singular. Além disso, levou-me à cinemateca tardes a fio, e fizemos belas sessões de leitura na sua imensa e eclética biblioteca. Apresentou-me Daggerman, Bradbury, Elliot, Blake e até "A Montanha Mágica " devorámos, em conjunto.
Em troca, ensinei- o a beijar. Sabes lá tu o que isso é!
Lembrar-me do P. levou-me por outras paragens. Fez-me pensar na extinção dos intelectuais. Aquele intelectual presente em todas as turmas (liceu, faculdade...). Aos 15 anos já tinha lido tudo e mais alguma coisa. Com um conhecimento dilatado sobre diferentes matérias, mas com um discurso agregador, rico e completo ( até para a idade). Sempre solitário, complicado, de poucas palavras... roupa escura, bom aluno. Uma figura bem identificada, que se tem vindo a extinguir, parece-me.
Muito provavelmente está a dar lugar a um outro género qualquer.
Há dias, andávamos a tentar chegar a uma conclusão sobre quem tinha tido o namorado mais feio e desengraçado, de sempre. Depois de muita roupa suja esfregada, a Vi lá concluiu: foste tu, miúda, ou já te esqueces-te daquele intelectual sempre de preto, que parecia um filósofo, falava de política e punha o pessoal da turma a olhar para ele, como boi para um palácio?
Um tipo enfiado, de aspecto pavoroso, enfim, também andaste com cada um...
Nem respondi. Estava entretida a sugar a polpa viscosa do diospiro enquanto, ao som da palavra 'intelectual', a figura do P. se ia compondo na minha memória. Era o P., claro. Era ele!
Pois fica sabendo, Vi, que o P. era um feio-bonito. Singular. Além disso, levou-me à cinemateca tardes a fio, e fizemos belas sessões de leitura na sua imensa e eclética biblioteca. Apresentou-me Daggerman, Bradbury, Elliot, Blake e até "A Montanha Mágica " devorámos, em conjunto.
Em troca, ensinei- o a beijar. Sabes lá tu o que isso é!
Lembrar-me do P. levou-me por outras paragens. Fez-me pensar na extinção dos intelectuais. Aquele intelectual presente em todas as turmas (liceu, faculdade...). Aos 15 anos já tinha lido tudo e mais alguma coisa. Com um conhecimento dilatado sobre diferentes matérias, mas com um discurso agregador, rico e completo ( até para a idade). Sempre solitário, complicado, de poucas palavras... roupa escura, bom aluno. Uma figura bem identificada, que se tem vindo a extinguir, parece-me.
Muito provavelmente está a dar lugar a um outro género qualquer.
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